12.4.15

"Still Alice", they say.

Sugiro que leiam o texto com isto no fundo.


Olhem-se ao espelho e perguntem-se do que são feitos.

O que é que em nós mais reside do que a simples memória daquilo que somos? O que somos. O rosto daqueles que nos tornam em nós. É esse rosto que aparece quando pensamos na vida, desde o momento em que a conhecemos. Eu e tu e a tua vizinha do lado somos aquilo que somos porque alguém nos deu um nome, moldou a nossa maneira de agir, sentir e pensar à luz daquilo que íamos expressando, dia após dia. 
Somos realmente aquilo que vivemos: o típico Sábado que parece que dura mais do que o Domingo, o lombo assado no forno e as batatas com ovo da minha avó; o chocolate escondido a sete chaves que o meu avô pensa que desconhecemos e insiste em o oferecer apenas no fim do almoço, como se ainda tivéssemos sete aninhos; as canções que decoro por ouvir o meu irmão a cantá-las; a escolha segura do sabor do gelado que sei que corre sempre bem; os saltos altos que insisto em calçar em dias de apresentações só para me sentir um pedacito mais confiante; o medo que tenho da condução dos outros; a minha sede por conhecimento médico, que apesar de pouco, me reconforta  cada vez mais saber e saber e saber um pedacito de tudo sobre o tudo ou nada; as duas gotas suficientes do meu perfume, todas as manhãs; aquilo que não suporto; ... e podia estar aqui até amanhã e depois de amanhã e depois do depois de amanhã, a recordar aquilo que as recordações fizeram de mim. 

E é por ter consciência disto que o filme mexeu comigo. E com certeza que não fui a única que me senti triste e de certa forma, com um sentimento de injustiça por todas as Alices que vivem assim. Ou então pelos maridos e filhos das Alices, que estando conscientes de tudo, sofrem para lá do que é aceitável para meros mortais.  
Na verdade, há coisas que tocam lá bem no fundo do nosso íntimo pensamento por sabermos que podíamos ser nós, podemos ser nós, eles podem ser nós, um dia, quem sabe. O futuro assusta, sim. Mas também são filmes como este que demonstram a urgência de se ser feliz! que temos de ter em mente, todos os dias, ou pelo menos tentar. Porque a vida é incerta e cada um de nós merece não esperar pela felicidade, mas construí-la, aos poucos e poucos. É esse o mote. Ser feliz em pequenas frações, mas na eternidade do tempo. Construir uma Alice que se orgulhe de o ter sido, por muito que isso possa vir a ser apagado, um dia.

4 comentários:

  1. Adorei as tuas palavras, é tão bom viver!

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  2. Já tinha ouvido falar do filme, mal acabei de ler o teu post fui logo vê-lo e sinceramente fiquei sem palavras, que filme incrivel!

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