12.11.15

from the daily scenes of my life


Hoje, vinha no autocarro e umas raparigas - aparentemente caloiras pela postura demasiado preocupada, olhares cansados e vontade extrema de falarem no curso - vinham a conversar sobre "o futuro". Sabem aquele tipo de conversa que chega ao fundo do autocarro, aliás ultrapassa o vidro (bem espesso) das janelas do mesmo?

Uma delas disse, com muita confiança, e em voz alta: Ai eu depois do curso, passo um ano em meio hospitalar e depois vou logo para África, é certinho. Para os médicos sem fronteiras! 



A crítica que vos trago com isto não é de todo uma crítica com base no pensar pequeno, no almejar menos (que por vezes é bem portuguesinha, admita-se) Nada disso. Eu percebo que as pessoas tenham objetivos. Eu tenho os meus. São as minhas metas. São por mim estabelecidas e muitas delas talvez não façam sentido daqui a uns anos, mas tenho-as comigo diariamente. E é claro que exercer uma profissão nobre como a minha (futura) e querer fazê-lo fora de Portugal e ainda mais, ligada a uma instituição com todo o prestígio que deve ter, poderia constar dessa minha lista. Porque não?!

No entanto, acho que discursos deste tipo não devem ser feitos em contextos e formas desmedidas como este foi. Referiu-se a isso como se fosse fácil, como se fosse certo como eu amanhã pegar na minha mala e meter-me no comboio para casa. E não é assim. Não me refiro só a este caso isolado, como o comparo a muitos outros na minha vida. Lido com pessoas que quase que parece que escrevem o próprio futuro, sem ainda perceberem o que ele implica, entendem? Critico a falta de realismo nas promessas que as pessoas dizem da boca para fora. Há que pensar grande sim, mas há que pensar de forma correta e à séria.

A minha sincera opinião é que as verdadeiras conquistas que temos em mente - e aquelas que chegamos a alcançar, de facto - não são ditas em voz alta, com uma arrogância de grande tamanho e, muito menos, para uma plateia. 

8 comentários:

  1. Concordo completamente contigo. Tudo bem que devemos ter as nossas metas, e tudo bem que sejam até bem grandes. Mas é escusado falar disso em frente a toda a gente "eu vou, eu posso, eu sou". Não é necessário, de todo.

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  2. Revejo-me muito na tua opinião. Acho que os jovens andam com a sensação de que é tudo fácil, que é tudo possível. É bom sonhar e estabelecer objetivos. É bom lutar por eles. Mas as nossas prioridades mudam, coisas acontecem e sonhos são deixados para trás. Nem sempre é fácil. A vida não é fácil. É importante pensar nisso antes de falar.

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  3. "E é claro que exercer uma profissão nobre como a minha" - as outras não são? Todas as profissões são nobres e a tua não é mais especial do que nenhuma! Se achas que és por isso, desengana-te. Muitos estudantes de medicina pensam que não melhores que os outros, mas não têm nada de melhor. São tão necessário como qualquer outra profissão.

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    1. Quando nobre significar 'ser melhor', vou concordar contigo em cada letra. Até lá, um bom conselho seria guardar esse empenho todo em ler coisas onde elas não estão numa gaveta. Obrigada pela tua espetacular interpretação deste texto.

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  4. Eu concordo contigo :) E temos de lutar pelo que queremos :)

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  5. Ao que me parece tu não conhecias a rapariga, portanto não sabes o quanto essa decisão já foi ponderada anteriormente. A atitude dela, essa sim, é muito nobre.

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    1. Depois de ter escrito este texto e mesmo antes de o publicar antevi um comentário deste tipo e é legítimo. Mas talvez não seja uma coisa fácil de se perceber pela minha descrição textual do momento. E é claro que a rapariga pode ter sonhos, pode mesmo ter esse caminho definido. Mas, às vezes o problema não está no que se diz, mas sim na forma como se diz. Tenho a certeza que já tiveram momentos nas vossas vidas em que algo vos soou mal e nem tinham nada que ver com o assunto. Foi apenas um desabafo daquilo que me irrita em algumas pessoas. Nada contra a pessoa em questão. Não me educaram a julgar pessoas, mas ensinaram-me a ser crítica e a saber ser humilde. E assim que algo foge deste padrão a que fui ensinada, é-me natural criticar tais atitudes.
      Ainda assim, percebi perfeitamente o teu comentário e, provavelmente eu, se não tivesse presenciado o momento e tivesse lido apenas este texto escrito por um outro alguém pensaria da mesma forma.

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  6. Concordo plenamente com aquilo que escreves-te!

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