26.11.16

Sou portuguesa, com certeza.

O bacalhau, o cozido, a marmelada, as moelas, as ruelas, a saudade e as pessoas. Tudo faz parte do nosso bocadinho à beira-mar. E cá estou, num bocadinho mais acima, no cantinho minhoto do nosso adorável país.

Lembro-me bem da primeira vez. A primeira vez que "senti Portugal" foi em Lisboa. Era ainda uma prematura na cidade e tudo era novo para mim. As ruas, o cheiro, as caras. E foi numa ruela muito torta que ouvi um fado. Não sei quem cantava, não sei onde estava, mas ouvi-lo foi sintonizar-me ao sítio onde morava. Digo que me senti portuguesa ali e, ainda hoje, quando ouço fado, seja ele qual for, volto a lembrar-me que o sou. E isso traz orgulho, paixão e traz uma certa nostalgia, tem que trazer.

I
Estava eu no meu 12º ano quando li Pessoa. Sabia quem era, conhecia-lhe a história e, ria-se acerca disso, nunca o tinha lido. Não foi tarde. Apaixonei-me ao primeiro poema. Tenho a certeza que lhe conhecem estas palavras: 

"O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente."


Hoje percebo porque me identifiquei de imediato com tal denuncia. Ora ali estava alguém que se assumia enquanto poeta - arte da sua vida - e, ao mesmo, tempo, se declarava um "fingidor". Do lado de cá, senti que podia confiar em tais palavras, porque elas eram duras e, mais ainda, eram dirigidas a si (e a todos os poetas). Na altura, já escrevia um blog e, depois de reler o poema, consegui perceber que também eu - uma miniatura de escritora - era uma fingidora, por vezes. Não que escrevesse mentiras, mas também eu reescrevia momentos da minha vida, de uma forma mais detalhada e positiva do que o momento em si. Não sei se me faço entender. Talvez nem Pessoa se fizesse. Mas o que é certo é que há sempre alguém que se identifique com ele e aquele foi o meu dia. Até hoje.
II
Passando um século de triunfos literários à frente, falo-vos do dia em que me esbarrei com Saramago. Desta vez, de uma forma pouco convencional e fora do contexto académico, conheci-o não pela sua escrita, mas pela sua simples maneira de ser. Vi o seu documentário, que até hoje continua a ser um dos documentários biográficos mais bonitos que já vi, José & Pilar. Demorou cerca de 1h30min para me apaixonar pela serenidade e sinceridade de José de Sousa. É verdade, José de Sousa seria o seu nome, não fosse o acaso determinar que um funcionário do registo estivesse embriagado, trocando o seu último nome por SARAMAGO.

E sobre Saramago, falar-vos-ia até para o ano. Não lhe li muitas obras, para ser sincera. Hoje não sou uma pessoa que devore mais do que 4 livros por ano. Mas sempre que escolho um para ler, terá que ser de Saramago. Estou neste momento a ler "Pequenas Memórias", um livro também ele pequenino, que resume a vida deste escritor, em jeito de autobiografia.

Tenho também a dizer-vos que, apesar de Memorial do Convento ter sido uma obra enorme e chata para se ler em contexto de obrigatoriedade, a verdade é que ela me despertou para o tom reprovador e denunciador de Saramago. Eu admiro-o exatamente por isso. Por fazer com que o pó sacudido para debaixo do tapete seja visto por todos.

III
Sacudindo os escritores para lá, trago-vos duas minhas paixões musicais portuguesas. É tão fácil gostarmos de música, não é? Sinto que é uma das coisas mais fáceis de amar e, nesta linha de pensamento, também uma das que reúne mais pessoas diferentes num saco comum. Tenho a certeza que, algures numa ponta do mundo, existe uma freirinha a gostar de Michael Jackson e, numa outra ponta, um vagabundo sem rumo também.

Falo-vos de António Zambujo. Ainda hoje fui puxar de uma gravação da entrevista que ele deu ao Daniel Oliveira, no alta definição e, sendo eu uma obcecada por autobiografias e entrevistas intimistas assim, não podia mesmo deixar de ver. A música de Zambujo é deliciosa. De certeza que há quem não ligue, mas eu cá acho que não há forma de não se gostar da sua música. É serena, pausada e alegre. E conta-nos sempre uma história. Ainda este Verão, tive a oportunidade inesperada de o ouvir, no Meo Marés Vivas, ao lado de Dengaz. Surgiu como convidado surpresa e cantou-nos esta bela patricinha.
IV
Uma cara sorridente do fado moderno: a Gisela. Tenho-a acompanhado cada vez mais de perto. Adoro segui-la no instagram, lá conseguimos vê-la na sua essência, com as suas maluqueiras e trato genuíno, sobretudo isto! (@giselajoaoaberdadeira

Ainda hoje ouvi esta nova canção do seu álbum "Nua"- O Senhor Extraterrestre - que é uma interpretação de um poema de Carlos Paião, escrito especialmente para Amália Rodrigues. Ela é sempre muito autêntica e aquele sotaque do norte é meio caminho andado para eu gostar da sua música. Mulher do Norte é forte! 

E aqui ficam algumas das minhas marcas culturais portuguesas. Penso várias vezes nelas e inspiro-me através delas. Hoje, este post surge numa tentativa de vos inspirar também...! E, claro, se tiverem boas influências para mim, venham elas.

2 comentários:

  1. Engraçado como existem momentos que, por mais simples que sejam, nos marcam e ficam connosco para sempre.

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  2. O meu querido Saramago aí representado é, com certeza, a personalidade que mais gosto de todo esse leque de portugueses gigantes que apresentaste!
    Tenho um amor especial pela escrita de José Rodrigues dos Santos e de António Lobo Antunes, sinto o fado português com a icónica voz da Mariza e com a doçura do Carlos do Carmo - que ao vivo é só tremendo -, sou apaixonada pelo talento dos Dead Combo e pela voz sedutora do Tiago Bettencourt.
    Somos um país tão intenso em todas as medidas e vertentes... tão bom! :)

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